Há escritores que entram na nossa vida pelos livros. Outros pela escola, outros ainda pela voz. Mário Zambujal entrou primeiro pela voz.
Vinha do futebol. Da rádio e da televisão. Falava do jogo com aquele tom cúmplice de quem parece comentar a própria vida. Era uma voz sem solenidade, uma voz que chegava como conversa de mesa. Mas foi depois, nas páginas de Crónica dos Bons Malandros, que aconteceu a verdadeira descoberta.
Eu era ainda um rapaz da província. Cascais e Lisboa eram cidades que existiam mais na imaginação do que no mapa da minha vida. Foi Zambujal que me ensinou como elas deviam ser: luminosas, irónicas, povoadas por personagens que vivem entre a astúcia e a ternura. Tigres e couves espalhados pela marginal como se a vida fosse apenas uma larga aventura.
Com ele percebi uma coisa essencial, as cidades não são feita de ruas. São feitas de histórias.
Demorou anos até conhecer o homem.
Foi em 2013, na Feira do Livro de Lisboa. Aquele momento teve qualquer coisa de encontro improvável, como se um personagem tivesse saído do livro para se sentar à mesa. A mesma ironia calma, o mesmo olhar atento às pequenas coisas que fazem a vida valer a pena. Zambujal tinha um talento raro: desmontava imediatamente qualquer solenidade. Talvez porque soubesse que a literatura vive da vida e não da pose.

Depois vieram os encontros em Óbidos. No FOLIO — o festival literário que ajudei a criar — partilhámos muitas conversas sobre literatura e sobre a vida. Foi ali que o seu espírito encontrou casa: a Casa dos Bons Malandros, nome que ele próprio inspirou e que acolhia escritores fora de horas, quando os festivais já tinham terminado oficialmente e começava a verdadeira conversa.
A literatura tem muito disso. A parte mais importante raramente acontece no palco.
Hoje o FOLIO tornou-se um dos festivais literários mais sonoros do panorama português. E, de certa forma, aquela casa improvisada — cheia de histórias, gargalhadas e cumplicidades — dizia muito sobre o próprio Zambujal. Ele compreendia que a literatura vive tanto nas páginas como nas mesas partilhadas.

Há também uma coincidência que sempre me tocou. Mário nasceu em 1936, o mesmo ano em que nasceu o meu pai. Como se aquela geração inteira tivesse aberto o caminho para nós, ensinando-nos a olhar o país com humor, inteligência e uma certa elegância moral.
Hoje sei que Mário Zambujal partiu.
A notícia deixa uma sensação estranha, como se Lisboa tivesse perdido um dos seus narradores secretos. Porque ele não escrevia apenas sobre a cidade — escrevia a partir dela, com aquele humor suave que transforma as pequenas falhas humanas em matéria literária.
Penso agora naquele rapaz da província que abriu Crónica dos Bons Malandros pela primeira vez. Sem saber, Zambujal ensinou-me a imaginar Lisboa antes mesmo de a viver. Talvez seja isso que fazem os grandes cronistas.
Dão-nos cidades antes de lá chegarmos. Dão-nos histórias antes de as vivermos.
E deixam-nos sempre um lugar à mesa.
Imagino-o agora do outro lado do mar, à procura do eterno cafuné — essa palavra brasileira que Portugal adotou com carinho — sentado num café improvável, a ouvir outra história e a rir-se antes do final.
Lisboa continua.
Cascais continua.
Os bons malandros também.
Só mudou o cronista.

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