A notícia passou por muitos radares como mais um sinal técnico do comércio internacional, mas não é, de todo, uma questão técnica: a ratificação do acordo entre a União Europeia e o Mercosul voltou ao centro da agenda política europeia. Para quem trabalha entre Lisboa e São Paulo, isto não é um detalhe diplomático. É um mapa. E o mapa dos melhores sectores para a ponte luso-brasileira começa precisamente aqui – onde a política comercial, a afinidade linguística e a necessidade de reposicionamento estratégico se cruzam.
https://www.reuters.com/world/europe/eu-mercosur-trade-deal-returns-political-centre-2024-12-06/
Há muito tempo que se fala da relação luso-brasileira como herança, afecto ou proximidade. Tudo isso existe, mas explica pouco quando se trata de investimento, exportação, reputação e escala. O que interessa agora é perceber onde essa relação produz vantagem concreta. Nem todos os sectores beneficiam da mesma forma da circulação atlântica. Alguns vivem de discursos simpáticos. Outros já começaram a formar cadeias de valor com densidade económica, cultural e institucional. É nesses que vale a pena prestar atenção.
O primeiro é o sector agroalimentar sofisticado. Não o sector agroalimentar de folheto turístico, mas o que junta transformação, certificação, distribuição e marca. Portugal tem competências reconhecidas em nichos de qualidade, rastreabilidade e posicionamento premium. O Brasil tem escala, matéria-prima, biodiversidade e apetite por segmentos de maior valor acrescentado. Quando estes dois mundos se encontram, abre-se um corredor interessante: produtos portugueses podem ganhar massa crítica no mercado brasileiro sem perder identidade; empresas brasileiras podem usar Portugal como plataforma de validação regulatória, reputacional e comercial para entrada na Europa. O obstáculo não é a falta de afinidade. É a tentação de subestimar a complexidade logística, fiscal e sanitária. Quem trata este eixo como atalho perde. Quem o trata como arquitectura ganha.
O segundo sector é a energia, sobretudo a energia da transição. Portugal tornou-se um laboratório visível em renováveis, redes, armazenamento e hidrogénio verde. O Brasil, pela sua dimensão e matriz energética, não precisa de imitar ninguém, mas precisa de parceiros que saibam transformar ambição em desenho institucional, financiamento e narrativa internacional. Aqui a ponte luso-brasileira pode ser menos comercial e mais estratégica: projectos conjuntos, consórcios, circulação de conhecimento técnico, diplomacia económica e acesso cruzado a centros de decisão. A energia é um sector onde a língua ajuda, mas não chega. O que conta é a capacidade de traduzir prioridades políticas em projectos bancáveis.
Depois surge a saúde, onde a conversa costuma ficar reduzida à farmacêutica ou aos seguros, quando o campo é muito mais largo. Há espaço na investigação clínica, nas tecnologias médicas, na gestão hospitalar, na formação especializada e até no envelhecimento, tema central para Portugal e cada vez menos periférico no Brasil. O eixo luso-brasileiro pode ser particularmente útil neste sector porque combina um sistema europeu altamente regulado com um mercado brasileiro de grande escala e enorme diversidade operacional. Isto cria um terreno exigente, mas fértil, para soluções que precisem de ser testadas, adaptadas e depois internacionalizadas. Não é um sector rápido. É um sector sério. E é precisamente por isso que pode gerar relações duradouras.
A economia criativa merece menos romantismo e mais estratégia. Cinema, audiovisual, música, edição, design, moda, património, festivais, formatos digitais – tudo isto já faz parte do imaginário da proximidade entre Portugal e Brasil. O problema é que ainda se pensa muitas vezes neste território como expressão cultural e não como infra-estrutura de influência e negócio. Um projecto audiovisual luso‑brasileiro não serve apenas para circular num festival ou numa plataforma. Serve para formar equipas, testar linguagens, abrir mercados de língua comum e reforçar presença junto de comunidades que decidem consumo, reputação e investimento. A cultura, quando bem tratada, não vem depois da economia. Prepara‑a.
Outro sector decisivo é o tecnológico, mas convém limpar o ruído. Não falo da tecnologia como religião nem da retórica das start‑ups como ornamentação social. Falo de software empresarial, cibersegurança, fintech, regtech, govtech e serviços digitais com aplicação concreta em contextos regulatórios distintos. Portugal oferece talento técnico, integração europeia e capacidade de pilotagem em ambiente mais compacto. O Brasil oferece escala, complexidade, dados de mercado e velocidade competitiva. Esta assimetria é valiosa. Quem consegue operar bem nos dois lados aprende depressa a desenhar produtos mais resilientes. O risco, como quase sempre, está na ilusão de que a língua elimina fricções. Não elimina. Apenas torna o erro mais elegante.
A educação executiva e a formação especializada aparecem menos nas conversas sobre investimento, mas deviam aparecer mais. Há uma procura crescente por programas que não sejam apenas académicos nem meramente corporativos, sobretudo nas áreas de liderança internacional, regulação, sustentabilidade, gestão cultural, comunicação pública e administração. Portugal e Brasil podem criar aqui uma oferta rara: formação com escala lusófona, repertório europeu e experiência latino‑americana. Isto interessa a empresas, universidades, fundações e administrações públicas. Interessa também à construção de elites mais capazes de trabalhar entre jurisdições, símbolos e ritmos diferentes. Uma ponte económica sem formação de quadros acaba por depender sempre de improviso.
Há ainda o imobiliário ligado a turismo qualificado, residências sénior, saúde e hospitalidade de longa permanência. É um sector sensível, porque mistura capital, território e percepção pública. Mas continua a ser um dos pontos de contacto mais intensos entre os dois países. O erro habitual é olhar para ele apenas pelo ângulo transaccional. O que está em causa, em muitos casos, é a criação de ecossistemas de vida, serviços e mobilidade para uma classe média alta e alta que quer circular entre Brasil e Europa com previsibilidade. Isso exige muito mais do que vender activos. Exige desenho de experiência, segurança jurídica e inteligência relacional.
Se fosse preciso condensar esta leitura, diria o seguinte: os melhores sectores para a ponte luso‑brasileira são aqueles em que a relação entre os dois países não é decorativa. São sectores onde Portugal não entra apenas como porta de entrada na Europa, nem o Brasil apenas como mercado gigante à espera de ser conquistado. Esse vocabulário já envelheceu. O que faz sentido agora é pensar em complementaridades mais finas: Portugal como ambiente de validação, sofisticação regulatória e reputação; o Brasil como espaço de escala, teste competitivo e densidade empresarial. Quando esta equação é bem lida, surgem operações melhores, alianças mais estáveis e menos folclore atlântico.
Também convém dizer o que não funciona. Não funcionam sectores assentes apenas em intermediação oportunista, nem projectos que usam a lusofonia como decoração institucional. A palavra comum ajuda a abrir a porta, mas não substitui estudo de mercado, leitura política, conhecimento fiscal e diplomacia cultural. Entre Lisboa e São Paulo há intimidade e há mal‑entendidos. Muitas vezes no mesmo jantar. Quem conhece a diferença entre proximidade e semelhança costuma chegar mais longe.
É por isso que a actualidade do acordo UE‑Mercosul importa tanto. Não apenas pelo comércio que pode facilitar, mas pela imaginação estratégica que obriga a rever. Há momentos em que uma relação bilateral deixa de ser assunto de comunidade e passa a ser assunto de posicionamento. Este é um deles. Para empresários, gestores, instituições culturais e decisores públicos, a questão já não é se Portugal e Brasil têm afinidade. Têm. A questão útil é onde essa afinidade pode ser transformada em capacidade, escala e presença. A resposta não cabe num slogan. Cabe numa escolha criteriosa de sectores e numa execução sem ingenuidade.
No Atlântico, como na política, a oportunidade raramente chega anunciada. Quase sempre aparece disfarçada de detalhe regulatório.

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