https://www.publico.pt/2024/12/06/economia/noticia/uniao-europeia-mercosul-fecham-acordo-comercial-2114567
O acordo entre a União Europeia e o Mercosul reintroduziu o Atlântico Sul no centro da conversa económica. Não por romantismo luso-tropical, mas por interesse. O mercado luso-brasileiro volta a ser visto, em Lisboa e em São Paulo, como espaço de passagem rápida para capitais, marcas, talento e influência. O problema é que continua a ser descrito com entusiasmo superior à sua compreensão.
Há muito tempo que Portugal olha para o Brasil com duas tentações opostas: a nostalgia e a simplificação. A primeira transforma afinidade histórica em argumento económico. A segunda imagina que língua comum equivale a facilidade operacional. Nenhuma ajuda muito. O Brasil é um continente institucional, regulatório e psicológico. Portugal, apesar da sua sofisticação europeia, continua a subestimar a escala e a informalidade relacional com que muitos processos brasileiros se organizam. E o Brasil, por sua vez, ainda lê Portugal ora como porta de entrada para a Europa, ora como escala sentimental, sem perceber sempre a densidade política, jurídica e reputacional do espaço europeu em que Portugal se move.
É por isso que o mercado luso-brasileiro não deve ser tratado como uma extensão natural de proximidade cultural. Deve ser lido como um corredor estratégico com fricções próprias. Quem entra neste corredor sem inteligência institucional tende a falhar por excesso de confiança. Quem entra apenas com prudência burocrática perde timing, interlocutores e relevância. O ponto não está em escolher entre afecto e cálculo. Está em perceber que, entre Portugal e Brasil, o afecto sem arquitectura produz ruído, e o cálculo sem sensibilidade fecha portas antes mesmo de as identificar.
O acordo UE-Mercosul interessa por isso mesmo. Não apenas pelo comércio. Interessa porque obriga elites empresariais, diplomáticas e culturais a voltarem a pensar a língua portuguesa como infra-estrutura de circulação e não apenas como herança. Essa distinção é decisiva. Heranças comovem. Infra-estruturas organizam poder. Quando uma empresa portuguesa decide instalar-se no Brasil, ou quando uma marca brasileira usa Portugal como plataforma de reputação e acesso europeu, o que está em causa já não é só exportar ou internacionalizar. É adquirir tradução política. É saber como se é lido num mercado que partilha palavras, mas não partilha códigos em igual medida.
Há aqui um ponto pouco dito. O mercado luso-brasileiro funciona menos como mercado integrado e mais como sistema de mediação. O valor não está apenas na transacção directa entre os dois lados. Está na capacidade de cada lado servir de intérprete para geografias maiores. Portugal pode ajudar o Brasil a entrar na gramática europeia sem perder identidade. O Brasil pode ajudar Portugal a regressar à escala, à ambição e à circulação num espaço onde a cultura e os negócios ainda convivem com uma intensidade menos compartimentada do que na Europa. Isto exige quadros bilaterais mais sofisticados do que missões empresariais com fotografia oficial e discursos de ocasião.
Os sectores onde esta mediação pode gerar mais valor não são necessariamente os mais óbvios. Energia, agro-indústria, tecnologia e turismo continuarão a ocupar o centro da agenda, e com razão. Mas o ganho mais interessante pode estar naquilo que mistura reputação com especialização: economia criativa, ensino executivo, saúde, audiovisual, serviços jurídicos de internacionalização, urbanismo, alimentação premium, património, hospitalidade, desporto, curadoria cultural. São áreas em que a confiança antecede o contrato e em que a percepção pública pesa tanto quanto o preço.
É também por isso que a circulação de quadros, artistas, académicos, gestores e pequenos investidores tem um peso maior do que parece. Muitas vezes, o mercado luso-brasileiro avança menos por grandes decisões de Estado do que por redes intermédias que criam densidade antes de criarem escala. Um advogado com trânsito entre os dois sistemas. Uma gestora cultural que sabe negociar com fundações em Lisboa e patrocinadores em São Paulo. Um empresário português que percebe que no Brasil a entrada num sector depende tanto da leitura regulatória quanto da escolha do interlocutor certo. Esse capital invisível raramente entra nas estatísticas, mas determina a qualidade do que depois aparece nas manchetes.
Convém, no entanto, evitar a euforia administrativa em torno do acordo UE-Mercosul. Um tratado não dissolve décadas de desconfiança, assimetria fiscal, proteccionismo táctico nem estilos de decisão muito diferentes. Facilita molduras. Não substitui cultura de execução. E entre Portugal e Brasil existe um velho equívoco: ambos acreditam conhecer-se melhor do que realmente se conhecem. É uma ilusão confortável. O sotaque ajuda, os códigos sociais aproximam, a memória histórica produz atalhos. Mas os erros mais caros acontecem precisamente quando a familiaridade desarma a análise.
Para empresários e decisores públicos, a consequência é prática. Entrar bem no eixo Portugal-Brasil implica preparar mais do que produto, preço ou agenda institucional. Implica mapear reputações, perceber temporalidades negociais, distinguir simbolismo de acesso real, e aceitar que o prestígio de um lado nem sempre se converte em autoridade do outro. Uma marca respeitada em Lisboa pode chegar ao Brasil como promessa vazia se não souber com quem falar. Uma empresa brasileira com escala doméstica pode falhar em Portugal se ler o mercado apenas como miniatura da Europa. O mercado luso-brasileiro recompensa quem sabe traduzir contexto em posição.
Este é, no fundo, o ponto político do tema. Portugal e Brasil têm passado demasiado tempo a celebrar afinidades e pouco tempo a desenhar instrumentos à altura delas. Falta menos retórica de comunidade e mais trabalho de arquitectura bilateral. Menos culto da excepção sentimental e mais institucionalização da confiança. O espaço lusófono, quando funciona, não é um museu da língua. É uma máquina discreta de circulação, influência e acesso. Mas só funciona quando alguém se dá ao trabalho de a afinar.
A notícia do acordo UE-Mercosul vale, portanto, como sinal. Não anuncia uma era dourada, nem legitima optimismos automáticos. Recorda apenas que o Atlântico voltou a contar. E quando o Atlântico conta, o mercado luso-brasileiro deixa de ser assunto de afinidade para passar a ser assunto de estratégia. Quem perceber esta mudança cedo não terá apenas mais oportunidades. Terá melhor posição para escolher quais merecem ser seguidas.

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