José Manuel Diogo
Flávio Bolsonaro chegou ao segundo turno das eleições brasileiras à frente de Lula. Quatro anos depois da derrota do pai, o apelido regressa à disputa pelo Planalto, agora através do filho. O resultado de 4 de outubro revela uma capacidade política que merece ser examinada com seriedade: o bolsonarismo conseguiu transmitir a sua força eleitoral. Quem esperava que o afastamento do fundador esvaziasse o movimento tem uma explicação a rever.
A sucessão é uma prova difícil para qualquer liderança personalista. O carisma costuma resistir mal à transferência e os herdeiros raramente recebem intacta a autoridade de quem os escolheu. Neste caso, a família ofereceu um mecanismo de continuidade. Flávio pôde apresentar-se como depositário de uma lealdade já construída, beneficiando da identificação com o pai. A reportagem da Reuters sobre a candidatura documenta essa passagem deliberada do testemunho. A minha leitura é que o parentesco funcionou como garantia de fidelidade para uma parte do eleitorado.
Mas há organização para além do sobrenome. O PL elegeu os dois senadores do Distrito Federal, os dois de Santa Catarina e os dois do Rio de Janeiro. São seis mandatos de oito anos, com recursos, tribunas e capacidade de intervenção política. Estes resultados dão ao movimento condições para continuar a exercer poder mesmo que perca a Presidência. A implantação parlamentar permite sobreviver às alternâncias do Executivo e preparar a disputa seguinte a partir de dentro do Estado.
É aqui que a análise exige cuidado. A votação de Flávio não permite concluir que todos os seus eleitores aderem ao conjunto das ideias bolsonaristas. Um voto pode reunir convicção conservadora, rejeição ao PT, interesse económico ou simples vontade de mudança. A competência eleitoral está precisamente em fazer convergir motivos diferentes numa candidatura. Para vencer, um movimento precisa de chegar a pessoas que nunca participariam numa das suas manifestações.
O erro dos adversários começa quando tratam essa diversidade como uma deficiência moral coletiva. Chamar ignorante ao eleitor pode proporcionar satisfação a quem perdeu o argumento, mas dificilmente recupera o voto. É necessário compreender por que razão uma pessoa considera toleráveis os defeitos de um candidato e insuportáveis os do outro. A resposta obriga a sair das certezas do próprio grupo e a ouvir experiências que a linguagem partidária frequentemente desqualifica.
Lula enfrenta agora esse trabalho. A análise de Igor Gielow, na Folha, identifica o desgaste de uma campanha apoiada na defesa da democracia, da soberania e dos indicadores económicos. São matérias relevantes, mas a sua tradução eleitoral depende da vida concreta. Quem sente insegurança, acumula dívidas ou receia perder rendimento avalia o governo a partir dessa experiência. A estatística pode estar correta e a insatisfação também. Governar implica responder a ambas.
Reconhecer a eficácia do bolsonarismo exige igualmente escrutinar o destino dessa força. Uma estrutura capaz de eleger sucessores e consolidar bancadas deve responder pelo uso que fará das instituições. O voto concede autoridade para governar dentro de regras; não absolve crimes nem autoriza vinganças. A responsabilidade judicial de um dirigente e a adesão política dos seus apoiantes pertencem a planos distintos. Nenhuma sentença substitui o trabalho de convencer eleitores.
O segundo turno permanece em aberto. Ainda assim, este domingo já mostrou que o bolsonarismo possui capacidade de reprodução e que a sua duração ultrapassa uma candidatura. Os seus adversários terão de disputar as razões dessa permanência, com organização, propostas e resultados reconhecíveis. Continuar surpreendido pela força de um movimento que regressa às urnas é conceder-lhe uma vantagem: a de conhecer melhor o país que ambos pretendem governar.
Referências
GIELOW, Igor. Erros em sequência e onda bolsonarista emparedam Lula. Folha de S.Paulo, 4 out. 2026.
REUTERS. In run for Brazil’s presidency, Flavio Bolsonaro tests staying power of his father’s legacy. 28 set. 2026.
REUTERS. Bolsonaro beats expectations in Brazil presidential vote, will face Lula in runoff. 4 out. 2026.
BRASIL. Senado Federal. Conheça os 54 senadores eleitos neste domingo. Brasília, 4 out. 2026.

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