A longevidade pede um Estado capaz de conciliar direitos adquiridos e novas possibilidades de participação.
Uma aposentadoria pode ter um só titular e vários lugares à mesa. Quando esse dinheiro ajuda nas despesas de filhos e netos, a proteção social atravessa gerações antes de o mês chegar ao fim.
Segundo levantamento da Nexus com dados do IBGE, pessoas com 60 anos ou mais chefiam 21,6 milhões de domicílios brasileiros. A maioria desses responsáveis vive acompanhada. O dinheiro recebido por uma pessoa participa de uma economia familiar maior do que a sugerida pela palavra beneficiário.
Completo 60 anos este ano, com vontade e capacidade de começar projetos pessoais e profissionais. Gostaria que o país soubesse dar espaço a essa disposição, tão legítima quanto o direito de descansar depois de uma vida de trabalho. Os direitos acumulados e os planos novos cabem na mesma pessoa.
Essa convivência merece orientar a reforma da nossa relação com o Estado. Uma renda estável pode dar segurança para aprender outra profissão ou tentar um pequeno negócio. A formação de adultos e o apoio à formalização podem ajudar a transformar experiência em rendimento. Empresas também têm responsabilidade em abrir oportunidades a quem chega a essa idade.
A pesquisa exige, contudo, atenção às diferenças. Entre 2016 e 2025, o rendimento médio de quem tem 60 anos ou mais caiu 4% em termos reais. Há quem trabalhe por gosto e quem precise continuar para completar o orçamento. Quem passou décadas em condições penosas pode chegar ao mesmo aniversário com muito menos saúde. A liberdade de escolher depende dessas condições.
O ganho de longevidade obriga ainda a cuidar do trabalho dos mais novos. Quando um filho consegue sustentar-se, a renda dos pais deixa de ter de cobrir aquela despesa. Política de emprego e proteção à velhice encontram-se no mesmo orçamento doméstico. Uma reforma que separe essas vidas corre o risco de fazer contas que a família não consegue pagar.
À mesa onde uma aposentadoria paga as contas pode nascer uma iniciativa nova. Um direito conquistado ao longo de muitos anos pode dar segurança ao primeiro passo de um projeto. Reconhecer essa possibilidade é uma forma de o Estado ajudar o cidadão a continuar autor da própria vida.

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