Ilustração do Congresso Nacional brasileiro sob uma linha financeira ascendente, com uma fissura simbólica na base.

O risco adiado

A vantagem de Flávio Bolsonaro fez subir os mercados brasileiros. A promessa de rigor fiscal merece um escrutínio que inclua também a disposição do candidato para respeitar os limites do poder.

Flávio Bolsonaro terminou a primeira volta à frente de Lula, e os mercados brasileiros valorizaram-se. Os investidores antecipam cortes de despesa e juros mais baixos, apoiados num Congresso mais à direita. A aposta exige, contudo, que duas expectativas se confirmem: que o filho governe melhor as contas e que o regresso da família ao poder preserve as instituições.

Quanto vale a primeira promessa se a segunda falhar? Um Congresso favorável pode aprovar reformas, distribuir benefícios ou abrir conflitos com os tribunais. A sua orientação política permite antecipar alianças; a responsabilidade orçamental exige conhecer decisões. Entre ganhar uma eleição e reduzir a dívida existem interesses, negociações e despesas que sobrevivem à troca de presidente.

Entre os próprios investidores, a expectativa de disciplina fiscal convive com o receio de que a prioridade parlamentar seja libertar Jair Bolsonaro e limitar o Supremo. São projetos que disputam tempo e capital político. Se a agenda familiar desencadear uma crise institucional, a prometida tranquilidade económica terá de ser recalculada.

Visto de Portugal, interessa perceber como esse risco chega à vida de quem trabalha, investe ou mantém uma empresa entre os dois países. Uma valorização pode realizar-se numa manhã. Uma fábrica, um contrato de fornecimento ou uma decisão de mudança comprometem anos. Precisam de regras que continuem a valer depois do entusiasmo e independentemente da vontade do governante.

Lula deve responder pelo custo económico das suas escolhas. A defesa da democracia obriga-o também a demonstrar competência para melhorar a vida dentro dela. Flávio deve explicar como pretende reduzir despesas e exercer o poder que pede. O eleitor merece conhecer ambas as respostas antes de a preferência dos investidores adquirir a aparência de uma conclusão nacional.

Contas sustentáveis e instituições respeitadas reforçam-se. Admitir que uma promessa económica compensa a incerteza sobre as regras enfraquece a própria garantia do investimento. Um governo que pede confiança para honrar a dívida deve oferecer a mesma segurança quanto aos limites do cargo.


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