Recebi o cravo antes de perceber que era para mim.
Havia gente demais, sol demais, vozes demais. A avenida parecia respirar por milhares de bocas ao mesmo tempo. Ao fundo, o monumento subia desfocado, como sobem certas lembranças: altas, solenes, mas incapazes de tocar a pele. Tudo parecia grande — a cidade, a data, a multidão, a palavra liberdade.
Foi então que ele apareceu, sorrindo, braço estendido, a flor vermelha entre os dedos. Um gesto simples, quase infantil, como quem oferece água, pão, uma maçã, uma desculpa. A flor tremia um pouco no ar. Talvez fosse o vento. Talvez fosse a mão. Talvez fosse a própria história, cansada de estar nos livros, tentando voltar ao corpo.
Peguei o cravo.
Só nesse instante compreendi: a liberdade não vive nos discursos que a celebram, nem nas pedras que a homenageiam. Vive nesta passagem mínima de uma mão para outra. No desconhecido que sorri. Na flor que aceita morrer para continuar dizendo. No povo que se junta não para obedecer, mas para lembrar que um dia aprendeu a não ter medo.
Olhei de novo para o homem. Ele já oferecia outro cravo a outra pessoa.
E ali, no meio da avenida, percebi que a revolução não tinha acabado. Apenas mudara de forma. Agora era isto: alguém entregar uma flor, alguém recebê-la, e ambos fingirem que era só uma flor.


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