A escolha de Portugal como país homenageado da Bienal do Livro do Rio, em 2025, foi recebida como celebração editorial. Era, também, uma operação de política externa em plena luz. A diplomacia cultural entre Brasil e Portugal raramente faz ruído de cimeira, mas determina quem é ouvido, quem circula e quem consegue transformar proximidade histórica em influência contemporânea.
Há uma tendência para reduzir a relação luso-brasileira à língua, à saudade ou ao movimento de pessoas. Tudo isso existe e tem peso. Mas a língua não é um activo automático. Pode ser uma avenida ou uma alfândega, consoante a inteligência com que cada país a trata. A mesma língua permite que um escritor português encontre leitores em Recife e que um músico brasileiro encha salas em Lisboa; também pode esconder diferenças de escala, repertório, ritmo económico e imaginação política que exigem tradução, mesmo quando ninguém precisa de intérprete.
O caso da Bienal ilustrou essa ambiguidade. Portugal chegou ao Rio com autores, editores, agenda institucional e a expectativa legítima de projectar a sua produção literária. O Brasil recebeu-o como um país que pertence à sua memória, mas que já não pode esperar uma hospitalidade fundada apenas na herança. O leitor brasileiro é vasto, exigente e atravessado por circuitos culturais próprios. A presença portuguesa só se torna relevante quando deixa de se apresentar como visita de família e passa a participar numa conversa brasileira, com atenção ao seu presente, às suas fracturas e à sua extraordinária capacidade de produzir centralidade cultural.
O que a cultura negocia antes dos governos
A diplomacia cultural é frequentemente tratada como ornamento: concertos depois dos protocolos, exposições antes do jantar oficial, literatura como gesto simpático entre ministros. É uma leitura curta. Cultura é o lugar onde se formam confiança, vocabulário partilhado e reputação de longo prazo. Um acordo comercial pode abrir uma porta; a familiaridade cultural decide, muitas vezes, se alguém entra, permanece e merece crédito.
Para uma empresa portuguesa que procura o Brasil, a cultura não substitui o conhecimento regulatório nem a escolha de parceiro local. Seria imprudente romantizar o mercado. O Brasil é continental, juridicamente complexo e comercialmente competitivo. Porém, a leitura cultural evita erros caros: confundir cordialidade com decisão, tomar São Paulo pelo país inteiro, usar referências portuguesas como se fossem universalmente reconhecidas ou imaginar que a lusofonia elimina a necessidade de presença continuada.
O inverso aplica-se aos agentes brasileiros em Portugal. Lisboa pode parecer pequena, acessível e emocionalmente próxima, mas é simultaneamente uma capital europeia, um centro de relações com a União Europeia e uma cidade onde a reputação circula depressa. A chegada brasileira traz energia, escala criativa e capacidade de ocupação de espaço. Traz também, por vezes, a tentação de ler Portugal como extensão doméstica. Quem vem para construir deve perceber que o mercado português não é apenas uma porta de entrada administrativa para a Europa. Tem códigos próprios, redes institucionais densas e uma sensibilidade aguda para a assimetria.
É aqui que a diplomacia cultural ganha utilidade prática. Ela cria ocasiões em que empresários conhecem programadores culturais, universidades se cruzam com editoras, fundações conversam com cidades, e uma marca encontra uma história que pode sustentar a sua presença. Nem toda esta actividade produz negócio imediato. Exigir-lhe resultados trimestrais é uma forma segura de a tornar irrelevante. Mas é precisamente nesses territórios de menor urgência que se acumulam os contactos que, mais tarde, dão contexto a uma negociação, tornam credível uma expansão ou ajudam a resolver uma crise de percepção.
Há outro aspecto menos cómodo. Portugal e Brasil disputam, por vezes, a autoridade simbólica sobre a língua portuguesa. A disputa é inevitável e até saudável, desde que não seja convertida numa pequena guerra de susceptibilidades. O português tem hoje o seu maior centro demográfico no Brasil, raízes históricas decisivas em Portugal e vidas muito próprias em Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Nenhum dos dois países pode falar sozinho por esse espaço. Quando o tentam fazer, diminuem-no.
A maturidade diplomática começa por aceitar que a língua não pertence a uma capital. Pertence aos seus falantes, às suas literaturas, às suas migrações e às suas variações. O Acordo Ortográfico mostrou como uma matéria aparentemente técnica pode expor ansiedades profundas sobre prestígio, pertença e poder. A lição não é abandonar a ambição de coordenação. É trocar a ideia de tutela pela de coprodução.
Uma política atlântica de presença
Portugal possui uma vantagem que nem sempre sabe usar: a possibilidade de funcionar como plataforma europeia sem se reduzir a entreposto. O Brasil possui outra, maior e mais difícil de organizar: uma densidade cultural capaz de influenciar imaginários muito para lá das suas fronteiras. Quando estas vantagens se encontram, surgem projectos que fazem sentido. Quando se limitam a cerimónias, criam fotografias institucionais e pouco mais.
Uma política cultural luso-brasileira consequente teria de preferir continuidade a grandes anúncios. Residências de criação, coproduções audiovisuais, circulação de editoras independentes, intercâmbios entre museus, programas universitários com impacto público e redes entre cidades podem fazer mais pela relação do que uma sucessão de semanas culturais. Não por serem mais glamorosos, mas porque criam hábito. A influência verdadeira instala-se pelo hábito de trabalhar, não pelo espectáculo de se encontrar.
Também convém distinguir visibilidade de reciprocidade. Portugal tem uma tradição eficaz de projecção institucional da cultura, embora com recursos limitados. O Brasil dispõe de artistas, criadores e empresas culturais de enorme alcance, mas a sua política externa cultural sofre com descontinuidades que acompanham os ciclos internos. Há aqui espaço para complementaridade, desde que as instituições deixem de confundir parceria com acolhimento protocolar. Uma parceria tem custos, autoria repartida, decisões difíceis e benefícios que não chegam todos ao mesmo tempo.
O acordo entre Mercosul e União Europeia, sempre dependente de ratificações, condições políticas e resistências sectoriais, acrescenta uma camada a este quadro. A cultura não resolverá as divergências agrícolas, ambientais ou industriais. Pode, no entanto, preparar o ambiente em que essas divergências são discutidas. Países que se conhecem apenas por estereótipos negociam pior. Países que partilham circuitos editoriais, académicos, científicos e criativos reconhecem melhor os interesses do outro lado, inclusive quando não os aceitam.
Para os decisores, a consequência é simples, embora não seja simples executá-la. A cultura deve entrar mais cedo nas estratégias de internacionalização, e não aparecer no fim como decoração reputacional. Uma empresa que patrocina uma exposição sem relação com a cidade onde opera está a comprar presença. Uma empresa que trabalha com instituições locais, compreende os debates culturais e aceita investir em permanência está a construir lugar.
O Atlântico entre Lisboa e o Brasil deixou há muito de ser uma linha de memória. É uma zona de concorrência por talento, capital, atenção e narrativa. A diplomacia cultural terá valor se souber abandonar a complacência da afinidade e tratar essa travessia como ela é: um espaço onde a proximidade só se torna vantagem quando é acompanhada por escuta, rigor e projecto.

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