Quais barreiras culturais nos negócios contam mais

Quais barreiras culturais nos negócios contam mais

https://www.publico.pt/2025/02/06/economia/noticia/acordo-mercosul-uniao-europeia-volta-centro-debate-mercados-regras-confianca-208xxxx

O problema raramente começa na alfândega. Começa na sala, no tom, no silêncio e na pressa. Quando se pergunta quais barreiras culturais nos negócios realmente travam acordos entre Portugal e Brasil, a resposta quase nunca está no exotismo fácil das diferenças. Está em pequenas assimetrias de expectativa que, acumuladas, custam reputação, tempo e margem.

O regresso do acordo Mercosul-União Europeia ao centro da discussão pública tem um mérito involuntário: recorda que comércio não é apenas tarifa, norma técnica ou calendário político. É também interpretação. Dois mercados podem falar a mesma língua e, ainda assim, negociar como se estivessem a traduzir intenções. No espaço lusófono, esse equívoco é frequente porque a proximidade verbal cria uma ilusão de entendimento automático. E é essa ilusão, mais do que a distância, que produz erro estratégico.

Há uma barreira particularmente subestimada: a diferença entre cordialidade e confiança. No eixo luso-brasileiro, a conversa pode começar depressa, com simpatia, abertura e disponibilidade. Mas isso não significa o mesmo dos dois lados do Atlântico. Em muitos contextos portugueses, confiança é um activo lento, consolidado por consistência, discrição e prova de continuidade. Em muitos contextos brasileiros, a abertura relacional pode surgir mais cedo, como sinal de inteligência social e predisposição para fazer avançar a relação. Quem confunde uma gramática com a outra lê mal o momento. Um lado julga haver intimidade negocial; o outro entende que ainda se está na antecâmara.

Outra barreira decisiva é a relação com a hierarquia. Nem Portugal nem Brasil cabem em caricaturas, mas a forma de exercer autoridade difere e isso pesa nas empresas, nas instituições e nas parcerias públicas. Em Portugal, a decisão pode parecer lateral, quase contida, com menos teatralidade e mais prudência formal. No Brasil, a autoridade muitas vezes manifesta-se com maior visibilidade, inclusive na energia verbal, no ritmo do contacto e na centralidade da figura decisora. O erro não está em haver estilos diferentes. Está em supor que o estilo indica superficialidade ou rigidez. Muitas negociações falham porque se julga a forma antes de se perceber a arquitectura real da decisão.

Também o tempo tem sotaque. O empresário português tende a valorizar continuidade, previsibilidade, sequência. O brasileiro, habituado a ciclos mais abruptos, volatilidade regulatória e ambientes de maior improvisação operacional, desenvolveu uma inteligência táctica que nem sempre cabe nos códigos europeus de prudência. Um vê improviso onde o outro vê adaptação. Um vê lentidão onde o outro vê controlo de risco. Nenhum destes impulsos é, por si, superior. Mas sem leitura cultural tornam-se juízos morais, e juízos morais são péssimos consultores de internacionalização.

Há ainda a barreira da linguagem, precisamente porque ela parece não existir. O português comum esconde diferenças de intensidade, subtileza e intenção. Um “vamos falando” pode ser cortesia diplomática ou sinal de baixa prioridade. Um “faz sentido” pode significar concordância efectiva ou apenas reconhecimento educado da ideia. Um “logo vemos” tanto pode adiar como encerrar. Nos negócios internacionais, especialmente entre países que partilham idioma, estas zonas cinzentas são mais perigosas do que o inglês rudimentar de uma reunião entre desconhecidos. Quando todos acreditam ter percebido tudo, ninguém confirma o essencial.

É por isso que a barreira cultural mais cara nem sempre é a mais visível. Não é o protocolo, a etiqueta à mesa ou a diferença entre tratamento formal e informal. É a gestão de ambiguidade. Empresas entram em novos mercados a medir fiscalidade, concorrência e custo logístico, mas chegam pouco treinadas para ler contextos sociais, simbólicos e institucionais. Sabem fazer due diligence jurídica e financeira; falham a due diligence cultural. E sem essa camada, a operação pode até arrancar, mas arranca coxa.

No espaço Portugal-Brasil, esta matéria ganha densidade porque não estamos perante dois mundos alheios. Estamos perante sociedades com memória mútua, afinidades reais e susceptibilidades herdadas. A história aproxima e contamina. Há paternalismos subtis de um lado, impaciências defensivas do outro, e ambos por vezes entram numa reunião sem se confessarem. O passado não aparece na agenda, mas senta-se à mesa. Quem trabalha internacionalização sem perceber esta espessura cultural limita-se a exportar produto; não constrói posição.

Para um decisor experiente, a pergunta útil não é apenas quais barreiras culturais nos negócios existem. É quais delas afectam a execução. A resposta, quase sempre, passa por quatro planos silenciosos: confiança, hierarquia, tempo e linguagem. Não porque esgotem o tema, mas porque moldam o resto. Um contrato pode resolver litígios; não resolve mal-entendidos de base. Uma boa apresentação abre portas; não corrige leitura errada do ambiente. Um parceiro local ajuda muito; também pode agravar equívocos se for escolhido apenas por proximidade social e não por inteligência intercultural.

A actualidade económica ajuda a perceber o ponto. Sempre que o debate sobe de escala – acordo comercial, investimento bilateral, internacionalização de marcas, circulação de talento – regressa a fantasia de que a afinidade lusófona basta como atalho. Não basta. A língua aproxima, mas não substitui método. A familiaridade reduz ansiedade, porém também baixa a vigilância analítica. E negócios mal lidos entre próximos podem ser mais destrutivos do que negócios falhados entre estranhos, porque deixam lastro reputacional.

Quem opera entre Lisboa e São Paulo, ou entre capitais menos óbvias deste mapa atlântico, aprende uma regra simples: sensibilidade cultural não é ornamento nem gesto simpático. É infra-estrutura de decisão. Não serve para parecer cosmopolita. Serve para evitar o erro caro de interpretar mal poder, intenção, ritmo e compromisso. Num tempo em que as empresas procuram escala sem perder densidade relacional, esta competência deixa de pertencer apenas à diplomacia e entra no coração do negócio.

Talvez a vantagem competitiva, daqui para a frente, pertença menos a quem fala mais alto sobre expansão e mais a quem sabe escutar nuances antes de assinar entusiasmo. Entre países que se entendem depressa de mais, a lucidez começa no cuidado com aquilo que parece óbvio.


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