“Code is law” — o código é a lei — escreveu Lawrence Lessig na virada do século. Parecia uma provocação acadêmica. A Revolut demonstra que talvez fosse um aviso.
A empresa fundada por Nik Storonsky já ultrapassou 80 milhões de clientes, opera em mais de 40 países e terá alcançado uma avaliação próxima de US$ 115 bilhões. Em 2025, declarou receitas de US$ 6 bilhões e lucro antes de impostos de US$ 2,3 bilhões. Depois de uma longa batalha regulatória, conquistou ainda a licença bancária definitiva no Reino Unido.
Os números são extraordinários. Mas a informação mais reveladora da reportagem do Financial Times é outra: muitas pessoas utilizam a Revolut para pagar, viajar, comprar moedas ou investir, mas continuam recebendo o salário em bancos tradicionais. A tecnologia conquistou as transações; ainda não conquistou inteiramente a confiança.
É precisamente essa fronteira que a Revolut pretende atravessar. A sua ambição não é ser apenas um banco mais barato, rápido e agradável. É reunir pagamentos, salário, crédito, investimentos, seguros, câmbio, viagens e ativos digitais numa única plataforma. Não quer uma parte do nosso dinheiro. Quer administrar a totalidade da nossa vida financeira.
Quando a mesma aplicação sabe quanto ganhamos, o que compramos, para onde viajamos, em que investimos e quanto conseguimos pagar, deixa de apenas executar escolhas. Começa a organizá-las.
O produto colocado no alto da tela, o crédito oferecido no instante exato, a comissão quase invisível, a dificuldade criada para abandonar determinado serviço e o investimento sugerido pelo algoritmo constituem uma forma silenciosa de legislação. Não passa pelo Parlamento, não exige debate público e raramente admite recurso. A arquitetura da aplicação transforma-se numa política econômica individual.
Os bancos sempre exerceram poder. A diferença está na escala, na velocidade e na profundidade. O antigo gerente conhecia o saldo da conta; a plataforma procura antecipar o desejo. O banco oferecia um produto; o aplicativo constrói o ambiente no qual a escolha será feita. O monopólio contemporâneo nem sempre começa cobrando preços elevados. Começa oferecendo uma conveniência da qual ninguém desejará prescindir.
Isso não transforma a Revolut numa organização malévola. A empresa inovou, reduziu custos, pressionou bancos acomodados e tornou serviços financeiros acessíveis a milhões de pessoas. Está submetida a supervisão e, no Reino Unido, os depósitos elegíveis possuem proteção legal. O problema não é a existência da plataforma. É a possibilidade de nos tornarmos dependentes dela antes de compreendermos o poder que lhe entregamos.
O Brasil é um laboratório privilegiado dessa discussão. O Pix foi uma revolução porque a infraestrutura de pagamentos permaneceu pública, aberta e interoperável. O Open Finance parte de outro princípio civilizatório: os dados pertencem ao cliente, não ao banco. Foram escolhas políticas corretas.
Mas uma infraestrutura aberta não impede que o poder volte a concentrar-se na interface. Se uma única aplicação se transformar na principal porta de acesso a pagamentos, crédito, investimentos e consumo, poderá haver concorrência nos bastidores enquanto, na tela do celular, quase toda a vida financeira passa pelo mesmo porteiro.
Regular o banco do futuro exigirá, portanto, mais do que fiscalizar capital, solvência e fraudes. Será necessário garantir portabilidade efetiva, direito de saber por que um crédito foi recusado, limites para o cruzamento de dados, acesso equitativo às infraestruturas públicas e, sobretudo, a possibilidade real de sair.
A questão não é impedir a inovação nem proteger os velhos bancos da concorrência. É impedir que a conveniência se transforme numa forma consentida de submissão.
O Estado cobra impostos, estabelece regras e influencia comportamentos. A plataforma define padrões, organiza escolhas e distribui oportunidades. Ambos governam. Com uma diferença essencial: numa democracia, podemos substituir o governo; abandonar uma aplicação que se tornou indispensável talvez seja uma liberdade apenas teórica.
Os Estados privados mais poderosos do futuro não terão território, bandeira ou hino. Terão termos de uso, algoritmos e um ícone discretamente instalado no nosso bolso.
José Manuel Diogo
Referências
AL-KHALAF, Laith. Revolut’s mission to dominate banking. Financial Times, Londres, 1 set. 2026. Disponível em: Financial Times. Acesso em: 2 set. 2026.
BANCO CENTRAL DO BRASIL. Sou cliente Open Finance. Brasília, DF, 2026. Disponível em: Banco Central do Brasil. Acesso em: 2 set. 2026.
BANK FOR INTERNATIONAL SETTLEMENTS. Regulating big techs in finance. Basileia, 2 ago. 2021. Disponível em: BIS. Acesso em: 2 set. 2026.
LESSIG, Lawrence. Code and other laws of cyberspace. Nova York: Basic Books, 1999. Ver também: Berkman Klein Center — Harvard University.
REVOLUT. Annual Report 2025. Londres, 2026. Disponível em: Revolut. Acesso em: 2 set. 2026.

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