O que empresários portugueses ignoram no Brasil

O que empresários portugueses ignoram no Brasil

A primeira coisa que empresários portugueses ignoram no Brasil é precisamente aquela que parece facilitar tudo: a língua. Ela reduz a cerimónia da chegada, mas pode também reduzir a atenção. Um gestor português aterra em São Paulo, reconhece palavras, referências e uma certa familiaridade social, e conclui depressa que entrou num mercado legível. É nesse instante que começa a cometer erros caros.

O Brasil não é uma versão ampliada de Portugal, nem um mercado lusófono com mais consumidores. É uma civilização empresarial própria, formada por uma federação de escala continental, por desigualdades que organizam comportamentos de consumo e por uma relação antiga, ambígua e muito prática entre o poder económico, o Estado e as redes pessoais. A proximidade cultural é uma porta. Nunca foi um mapa.

O que os empresários portugueses ignoram no Brasil quando chegam depressa

Há uma fantasia recorrente nas relações económicas luso-brasileiras: a de que a empresa portuguesa traz método, sobriedade e acesso europeu, enquanto o parceiro brasileiro traz dimensão e energia comercial. A caricatura é confortável para ambos. E insuficiente para quem tem capital, reputação e anos de trabalho em jogo.

A economia brasileira exige uma competência que em Portugal muitas vezes se confunde com improviso: a leitura do contexto. Uma decisão não decorre apenas de um preço, de um contrato ou de uma apresentação tecnicamente irrepreensível. Depende de quem valida, de qual Estado da federação regula, da confiança acumulada, do calendário político, do sector e, por vezes, do simples facto de a empresa local já ter sido decepcionada por estrangeiros bem-intencionados e mal preparados.

Em Lisboa, é frequente falar-se do Brasil como quem fala de um destino. No Brasil, cada entrada é local. São Paulo não é Recife, Porto Alegre não opera à mesma velocidade de Belo Horizonte e Brasília não se lê a partir de uma sala de reuniões na Faria Lima. Isto não significa que seja preciso abrir escritórios em todo o lado ou montar uma estrutura excessiva. Significa escolher uma praça inicial por razões concretas, e não pelo prestígio do endereço ou pela ansiedade de dizer que se está no Brasil.

A escala brasileira seduz e distorce. Uma empresa portuguesa habituada a resultados nacionais pode olhar para o número de consumidores e imaginar uma multiplicação linear. Mas a dimensão também multiplica fricções: distribuição, fiscalidade, crédito, serviço pós-venda, concorrência regional, custos de aquisição e exigências de adaptação. O mercado pode ser enorme e, ainda assim, o nicho rentável ser estreito. Crescer depressa pode ser a forma mais eficiente de descobrir que se cresceu sem margem.

A actualidade do acordo entre a União Europeia e o Mercosul torna esta conversa menos teórica. O entendimento, tantas vezes tratado como uma promessa comercial automática, deverá alterar incentivos, cadeias de abastecimento e expectativas políticas, se ultrapassar os seus obstáculos de ratificação e execução. Mas nenhum acordo substitui uma presença inteligente. Tarifas menores não resolvem uma proposta de valor mal traduzida, uma rede de distribuição errada ou uma equipa que confunde cordialidade com alinhamento.

Há também uma diferença de tempo que raramente cabe nos relatórios. O empresário português tende a valorizar a decisão prudente, a relação que amadurece, a palavra que ganha peso pela repetição. O brasileiro pode decidir com rapidez, mudar de fornecedor com rapidez semelhante e voltar meses depois com uma proposta muito mais ambiciosa. Não se trata de volatilidade como defeito nacional. Trata-se de uma economia em que a adaptação foi, durante décadas, uma forma de sobrevivência e de ascensão.

Quem interpreta esse ritmo como falta de consistência perde oportunidades. Quem se entrega a ele sem método perde dinheiro. A boa posição está algures entre a paciência institucional e a capacidade de resposta. Em muitos sectores, o parceiro local não deve ser procurado apenas para abrir portas. Deve ser escolhido porque compreende o que uma empresa portuguesa ainda não vê: onde está o decisor efectivo, como se constrói legitimidade e que promessa comercial parece boa no papel, mas soa irrelevante no terreno.

O Brasil não compra Portugal, compra utilidade

Existe um equívoco mais subtil: imaginar que a origem portuguesa, por si, produz diferenciação. Produz atenção inicial, sobretudo em áreas como o turismo, a alimentação, o imobiliário, a educação, a saúde, a cultura ou os serviços especializados. Pode sugerir tradição, qualidade, Europa, acesso. Porém, a origem só vale o que consegue provar numa relação concreta.

O consumidor brasileiro conhece marcas globais, compara experiências com exigência e distingue depressa o que é herança do que é preguiça embalada como herança. O mesmo vale para clientes empresariais. Uma solução portuguesa não é melhor porque vem de Portugal. Será relevante se reduzir um risco, resolver uma falha operacional, criar acesso, qualificar uma experiência ou acrescentar reputação a quem a compra.

Este ponto é decisivo porque há empresas que chegam ao Brasil a vender Portugal, quando deveriam começar por compreender o Brasil. Vendem uma ideia genérica de Europa, um design que não conversa com o consumidor local, um modelo de serviço pensado para outra disponibilidade de rendimento ou uma disciplina contratual apresentada como superioridade moral. O resultado é uma distância que a língua torna ainda mais constrangedora.

A reputação, neste mercado, não se faz apenas por comunicação. Faz-se por presença. Estar presente não quer dizer passar três dias num evento ou repetir viagens de prospecção sem mandato claro. Quer dizer ter interlocutores com poder de decisão, cumprir o que se anuncia, responder quando há um problema e aceitar que a relação profissional brasileira tem uma espessura humana que não cabe inteiramente num organograma. A conversa antes da reunião não é uma perda de tempo. Pode ser a reunião que realmente importa.

Também o Estado brasileiro é frequentemente mal entendido por observadores portugueses. Uns vêem burocracia e desistem antes de tentar. Outros chegam com a convicção de que um bom advogado resolve tudo. Nem uma coisa nem outra. A arquitectura fiscal e regulatória é complexa, sim, mas é também uma linguagem de acesso ao mercado. Quem a trata como um obstáculo exterior entrega demasiado poder a terceiros. Quem a estuda apenas como uma questão jurídica esquece que as regras variam, os interesses se organizam e os sectores têm geografias políticas próprias.

Isto obriga a uma humildade pouco celebrada nos discursos de internacionalização. Antes de exportar, convém escutar. Antes de contratar, convém saber quem pode ensinar a empresa a funcionar sem a desfigurar. Antes de anunciar uma aposta no país, convém definir o que se está disposto a aprender durante os primeiros dois anos, quando a operação ainda não tem brilho e todas as ilusões parecem ter custo fixo.

A relação Portugal-Brasil sofre, por vezes, de excesso de afecto histórico e falta de desenho contemporâneo. Há memória, famílias, escritores, investimentos, futebol, sotaques e uma intimidade que nenhum estudo de mercado consegue fabricar. Há também ressentimentos, assimetrias, vaidades e desencontros que convém não varrer para debaixo da retórica da lusofonia. Uma empresa séria não precisa de dramatizar esse passado, mas tampouco deve fingir que ele não entra na sala.

O empresário português que se sai melhor no Brasil não é o que chega a explicar o país aos brasileiros, nem o que abandona inteiramente a sua identidade para parecer local. É o que preserva uma assinatura reconhecível e aprende a ser útil dentro de uma realidade que não lhe pertence. Essa aprendizagem começa antes do primeiro contrato: na escolha de quem se ouve, no tempo que se aceita investir e na coragem de trocar a familiaridade ilusória por conhecimento verdadeiro.


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