A recente cimeira luso-brasileira em Lisboa deixou uma evidência pouco confortável para os habituais entusiastas do eixo atlântico: os projetos bilaterais entre Brasil e Portugal já não falham por falta de boas intenções, nem sequer por escassez de afinidades. Falham, muitas vezes, no momento menos fotogénico da relação entre países – aquele em que a promessa tem de sobreviver ao calendário, ao orçamento, à diferença regulatória e à troca de interlocutores.
As declarações políticas têm o seu lugar. Dão enquadramento, legitimam prioridades, criam linguagem comum. Mas ninguém exporta serviços criativos, investiga em saúde, instala uma unidade industrial ou leva uma empresa portuguesa ao mercado brasileiro com base numa fotografia de ministros. A diplomacia abre portas; o projeto só começa quando alguém aceita medir prazos, custos, risco cambial, regras fiscais, propriedade intelectual e capacidade real de execução.
Portugal e Brasil têm uma tendência histórica para confundir proximidade verbal com facilidade operacional. A língua diminui a estranheza inicial, mas pode esconder divergências decisivas. Um contrato entendido de forma idêntica em Lisboa e São Paulo é uma excepção mais útil do que parece. O mesmo acontece com a noção de urgência, a cadeia de decisão, a relação com o Estado, o peso da reputação ou o modo de construir confiança. Quem trata estas diferenças como pormenores culturais costuma pagar por elas quando o projecto já está em marcha.
Há, ainda assim, uma mudança de qualidade. Durante muito tempo, a relação económica viveu de movimentos previsíveis: investimento imobiliário, turismo, circulação de pessoas, marcas brasileiras a testar a Europa através de Portugal e empresas portuguesas a procurar escala no Brasil. Nada disso desapareceu. Porém, tornou-se insuficiente para a ambição que ambos os países afirmam ter. A questão deixou de ser apenas circular entre dois mercados; passou a ser produzir valor a partir dessa circulação.
É aqui que a ideia de bilateral ganha densidade. Um projecto verdadeiramente bilateral não é uma operação portuguesa com cliente brasileiro, nem uma marca brasileira com endereço europeu. É uma arquitectura em que cada parte traz algo que a outra não consegue reproduzir com a mesma facilidade. Portugal pode oferecer acesso institucional à União Europeia, especialização em determinados serviços, capacidade de teste em escala menor e uma posição reputacional particular no espaço europeu. O Brasil traz dimensão, sofisticação setorial, diversidade regional, massa crítica de talento e um mercado que obriga qualquer empresa a deixar de pensar em miniatura.
Esta complementaridade é mais visível em sectores onde a confiança pesa tanto como a tecnologia. A saúde, por exemplo, não precisa apenas de plataformas ou de laboratórios. Precisa de protocolos partilhados, validação clínica, compras públicas inteligíveis e interlocução séria entre reguladores. Na energia, o discurso sobre transição só se torna negócio quando há regras estáveis, financiamento paciente, capacidade de ligação à rede e parceiros que conhecem o terreno. Nas indústrias culturais, a língua comum ajuda, mas não resolve distribuição, direitos, curadoria, públicos nem a diferença entre ser conhecido e ser relevante.
O Acordo Mercosul-União Europeia, se vier a atravessar o seu longo corredor político e jurídico, poderá alterar parte deste mapa. Convém, no entanto, fugir à euforia administrativa. Um acordo comercial não substitui uma estratégia empresarial, e muito menos uma relação institucional. Pode reduzir barreiras, clarificar procedimentos e ampliar incentivos. Não escolhe sócios, não traduz culturas de negociação e não impede que uma empresa chegue ao outro lado do Atlântico com a proposta errada. Os países que tirarem melhor partido dele serão os que começarem antes a preparar cadeias de fornecimento, certificações, alianças e presença local.
Portugal tem uma oportunidade específica nesta preparação. Não deve tentar representar o Brasil perante a Europa, como se fosse seu porta-voz, nem vender uma ponte abstrata como produto acabado. Deve funcionar como lugar de encontro, prova e composição. Para uma empresa brasileira, Lisboa pode ser uma base de aprendizagem europeia, desde que o serviço prometido seja concreto: acesso a talento, apoio jurídico, leitura regulatória, redes setoriais, capital e parceiros comerciais. Para uma empresa portuguesa, o Brasil não pode continuar a ser apresentado como um continente de oportunidades à espera de ser descoberto. É um conjunto de mercados complexos, com assimetrias regionais, concorrência exigente e uma extraordinária capacidade de absorver quem chega preparado.
Há uma lição que os projetos culturais podem ensinar aos económicos. Os melhores não são os que usam a lusofonia como decoração institucional. São os que percebem que uma comunidade linguística é, antes de tudo, uma disputa por atenção, autoria e circulação. Uma coprodução audiovisual, uma residência literária, uma programação de museu ou uma plataforma educativa podem criar relações mais duradouras do que muitas missões empresariais, desde que não sejam reduzidas a cerimónia. Cultura, quando é bem tratada, forma públicos, cria códigos de confiança e dá espessura à presença de um país no imaginário do outro.
Também por isso é um erro separar, de forma demasiado limpa, diplomacia cultural e internacionalização. Uma editora, um festival, uma escola, uma associação empresarial ou um centro de investigação podem ser instrumentos de presença económica sem deixarem de ser o que são. A condição é não os instrumentalizar até à asfixia. A reputação de Portugal no Brasil e a do Brasil em Portugal não se constroem por campanha. Constroem-se na repetição de experiências consistentes: um parceiro que cumpre, uma instituição que responde, um investimento que não desaparece ao primeiro contratempo, uma programação que não trata o público como figurante.
Os decisores públicos têm aqui uma responsabilidade que não se resolve com novos memorandos. Precisam de escolher poucos domínios e acompanhá-los com persistência. Uma agenda bilateral demasiado extensa transforma tudo em prioridade e, por isso, quase nada em resultado. Seria mais inteligente concentrar capacidade em cadeias agroalimentares de maior valor, economia do mar, investigação clínica, energias limpas, conteúdos de língua portuguesa e formação avançada. Não por serem temas sonantes, mas porque cruzam competências existentes, interesse privado e margem de cooperação institucional.
Para os empresários, a recomendação é menos romântica e mais útil: entrar no outro país com um aliado que tenha pele em jogo. O consultor que apenas apresenta pessoas, o parceiro que só conhece a capital ou o distribuidor que representa vinte marcas incompatíveis raramente bastam. O investimento relacional exige tempo, presença e uma leitura fina de quem decide de facto. No Brasil, a dimensão não elimina a importância da proximidade. Em Portugal, a escala menor não dispensa acesso aos círculos certos. Em ambos os lados, o primeiro contacto abre pouco; a segunda e a terceira conversa definem quase tudo.
A relação entre Brasil e Portugal terá sempre uma camada afectiva, e ainda bem. Mas o afecto, no mundo dos projetos, deve servir para elevar o grau de exigência. Há demasiados anos que se celebra a proximidade como se ela fosse, por si só, uma vantagem competitiva. A vantagem começa quando essa proximidade se converte em método, especialização e responsabilidade partilhada.
O Atlântico não é uma ideia simpática entre Lisboa e São Paulo. É distância, fuso horário, legislação, memória e possibilidade. Quem quiser transformá-lo em valor terá de fazer o trabalho menos visível: escolher bem, preparar melhor e permanecer tempo suficiente para que a confiança deixe de ser uma promessa e passe a ser uma infraestrutura.

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