A discussão europeia em torno do acordo Mercosul-União Europeia voltou a expor uma ilusão recorrente: a de que a proximidade linguística encurta automaticamente a distância dos negócios. É precisamente nesse intervalo, entre a palavra comum e a expectativa divergente, que prosperam os erros em parcerias transatlânticas. Um acordo comercial pode reduzir tarifas; não reduz a má leitura de uma sala, a escolha errada de um intermediário ou a tentação de confundir simpatia com compromisso.
Portugal e Brasil partilham uma língua que facilita o primeiro telefonema e, por vezes, torna mais difícil o segundo. Há um conforto inicial, uma sensação de reconhecimento rápido, uma intimidade histórica que dispensa as cautelas normalmente reservadas a mercados estrangeiros. Um empresário português chega a São Paulo e encontra referências familiares, apelidos conhecidos, uma hospitalidade que parece abrir portas. Um empresário brasileiro aterra em Lisboa, percebe a escala manejável do país, a disponibilidade para conversar, a utilidade de uma base europeia. Tudo isto é real. Nada disto basta.
O erro começa quando a afinidade cultural é tratada como substituto de arquitectura institucional. Há empresas que atravessam o Atlântico com um parceiro escolhido por recomendação social, por afinidade política ou pela impressão produzida num jantar. Meses depois, descobrem que o distribuidor não tem capilaridade, que o sócio local não dispõe da influência anunciada, que a entidade apresentada como porta de entrada tem interesses próprios incompatíveis com o projecto. A decepção costuma ser descrita como um problema de mercado. Muitas vezes, foi apenas um problema de método.
A expressão “parceiro local” encobre realidades muito distintas. Pode significar alguém com conhecimento regulatório, capacidade comercial, reputação sectorial e disponibilidade financeira. Pode ser, em simultâneo, uma pessoa bem relacionada e inteiramente inadequada para executar. No eixo luso-brasileiro, onde as redes pessoais têm peso legítimo, há uma tendência para atribuir às relações um valor quase contratual. A relação abre a conversa; o contrato deve proteger a relação. Quando esta ordem se inverte, a amizade passa a suportar obrigações que nenhuma amizade deveria carregar.
A pressa tem aqui uma biografia conhecida. O lado europeu procura no Brasil escala, velocidade e uma promessa de mercado que compense a maturidade de casa. O lado brasileiro procura em Portugal acesso, chancela e uma geografia aparentemente simples para entrar na Europa. Cada um vê no outro uma resposta para a sua própria ansiedade. O português pode esperar que a informalidade brasileira resolva bloqueios com agilidade. O brasileiro pode supor que a previsibilidade portuguesa dispensa investimento de presença. Ambos cometem um erro de tradução, não de idioma, mas de ritmo.
No Brasil, a dimensão do mercado torna a execução desigual. Uma operação respeitável em São Paulo pode não ter relevância no Nordeste; uma marca conhecida no Rio de Janeiro pode encontrar resistência em Belo Horizonte; um parceiro com excelente trânsito público pode revelar fragilidade na distribuição privada. Em Portugal, o erro inverso aparece com frequência: olhar para a pequena escala como se fosse sinónimo de simplicidade. O mercado português é compacto, mas está ligado a normas europeias, a circuitos institucionais densos e a uma economia onde a reputação circula depressa. Quem chega a Lisboa a tratar o país como mera sala de espera para Bruxelas pode sair com pouca coisa além de cartões de visita.
Há também uma diferença menos visível, mas decisiva: a relação com a palavra dada. Não se trata de opor um país formal a outro informal, caricatura que só serve quem nunca trabalhou seriamente em nenhum dos dois. Trata-se de reconhecer que a conversa comercial cumpre funções diferentes. No Brasil, a construção de confiança pode anteceder a precisão documental. Em Portugal, a precisão documental pode ser a própria forma de construir confiança. Uma proposta demasiado fria, enviada cedo demais, pode ser lida em São Paulo como distância. Uma promessa genérica, repetida sem calendário nem responsabilidades, pode ser lida em Lisboa como falta de consistência. A inteligência está em perceber que os dois códigos exigem tradução activa.
A reputação, neste ponto, vale mais do que a expansão apressada. Há marcas que chegam ao outro lado do Atlântico com material de comunicação impecável e uma compreensão rudimentar do seu próprio lugar. Falam de legado sem saber que legado querem activar, invocam lusofonia como ornamento e imaginam que um sotaque neutro resolve uma identidade mal pensada. A lusofonia não é uma campanha. É um espaço de memórias desiguais, interesses concretos e sensibilidades que não toleram a condescendência de quem aparece apenas para vender.
O mesmo se aplica às instituições culturais, que por vezes confundem circulação com presença. Levar uma exposição, um escritor, uma conferência ou um festival para o outro lado do Atlântico pode produzir visibilidade. Só produz relação quando existe continuidade, mediação local e vontade de escutar o contexto que recebe. A diplomacia cultural falha quando se limita a transportar prestígio. Funciona quando cria reconhecimento mútuo sem apagar as diferenças que tornam o encontro interessante.
Os contratos merecem mais atenção do que normalmente recebem no entusiasmo inicial. Não por desconfiança sistemática, mas porque a ambiguidade tem um custo elevado quando surgem os primeiros resultados, ou a ausência deles. Exclusividade, metas, território, propriedade intelectual, acesso a dados, regras de saída e responsabilidades de investimento não são minudências jurídicas. São o mapa de poder da parceria. Um acordo que deixa estas matérias para “mais tarde” está apenas a adiar uma conversa que regressará em condições piores.
Importa ainda resistir ao fetiche da ponte. Portugal não é automaticamente a ponte certa para qualquer empresa brasileira, nem o Brasil é a porta natural para qualquer empresa portuguesa. Depende do sector, da maturidade financeira, da capacidade de adaptação do produto, da rede existente e do tempo disponível para aprender. Há casos em que uma entrada directa noutro mercado europeu faz mais sentido para uma empresa brasileira. Há empresas portuguesas para quem Angola, Moçambique ou uma estratégia regional brasileira serão opções mais consequentes do que uma presença concentrada numa única cidade. O Atlântico é uma geografia de possibilidades, não uma obrigação sentimental.
Os melhores parceiros transatlânticos não são os que prometem acesso instantâneo. São os que introduzem fricção útil: fazem perguntas incómodas, recusam prazos irreais, explicam por que razão uma fórmula bem-sucedida em Lisboa não sobreviverá intacta em São Paulo, ou por que motivo uma operação brasileira precisa de aprender a linguagem regulatória europeia antes de celebrar a primeira reunião. Essa fricção poupa dinheiro e, sobretudo, protege nome.
Há uma disciplina simples, embora pouco espectacular, para quem pretende atravessar este espaço com seriedade: visitar antes de anunciar, testar antes de exclusivizar, ouvir antes de traduzir a própria experiência em certeza. As parcerias duradouras começam quando cada lado deixa de procurar um espelho do outro e aceita trabalhar com um interlocutor que conhece o seu território, os seus limites e o preço da confiança.

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