A persistência do Acordo Mercosul-União Europeia no centro da conversa política devolveu uma palavra pouco cómoda ao debate económico: circulação. Não apenas a de mercadorias, mas a de pessoas, repertórios, formatos e direitos. É nesse movimento que as tendências economia criativa lusófona deixam de parecer matéria de festivais, prémios ou diplomacia protocolar e passam a tocar no que interessa a empresários e decisores: quem define valor, quem detém a propriedade intelectual e quem fica apenas com a decoração cultural do negócio.
Durante demasiado tempo, a economia criativa foi tratada no espaço de língua portuguesa como uma espécie de departamento simpático da economia. Havia música para abrir cimeiras, gastronomia para receber delegações, escritores para dar gravidade a uma fotografia institucional. O problema não era a presença da cultura. Era a sua redução a adereço, quando a cultura é precisamente o sistema através do qual um mercado reconhece confiança, desejo e pertencimento.
Portugal e Brasil sabem isto, embora nem sempre o digam com a mesma franqueza. Uma série brasileira encontra em Portugal uma primeira porta europeia, mas também um laboratório de tradução institucional: contratos, janelas de distribuição, regras de financiamento, crítica especializada. Uma editora portuguesa que chega ao Brasil não encontra apenas uma dimensão de mercado que Lisboa não pode oferecer. Encontra novas oralidades, ritmos de consumo, redes de influência e uma capacidade de transformar autores em presença pública. A relação é produtiva quando cada lado deixa de procurar no outro uma extensão de si próprio.
A primeira tendência relevante é, por isso, menos tecnológica do que jurídica. A disputa pela autoria está a tornar-se central. Catálogos musicais, direitos audiovisuais, marcas de moda, formatos televisivos, ficheiros fotográficos e personagens literárias passaram a ser activos negociados com uma atenção que há uma década era reservada a infra-estruturas. Há dinheiro global à procura de propriedade intelectual previsível. A lusofonia tem abundância de matéria-prima criativa, mas continua a sofrer de dispersão contratual e de pouca continuidade empresarial.
O risco é conhecido. Uma canção angolana torna-se som de fundo num vídeo mundial; um padrão cabo-verdiano inspira uma colecção estrangeira; uma história amazónica é adaptada por uma plataforma que concentra receita, dados e distribuição. A visibilidade pode ser real e, ainda assim, o valor escapar. A economia criativa não se mede apenas pela capacidade de produzir imagens fortes. Mede-se pela capacidade de negociar condições antes de a imagem circular.
A inteligência artificial acrescentou pressão a este ponto. Não convém tratá-la como oráculo nem como ameaça abstracta. Para a língua portuguesa, ela coloca uma questão muito concreta: quem fornece os acervos, quem corrige os modelos, que variantes linguísticas são reconhecidas e que criadores recebem remuneração quando o seu trabalho alimenta máquinas de síntese? O português não é uma língua uniforme guardada numa vitrina. É uma arquitectura de sotaques, vocabulários e memórias. Transformá-la em dados sem critério pode nivelar precisamente aquilo que lhe dá valor.
Ao mesmo tempo, a tecnologia pode corrigir uma antiga assimetria. Um estúdio de animação em Maputo, um produtor musical em Luanda ou uma pequena editora em Praia podem hoje falar directamente com audiências que antes dependiam de intermediários sediados em Londres, Paris ou Nova Iorque. Mas acesso não equivale a posição. As plataformas distribuem alcance; raramente distribuem poder. Quem entra nelas sem estratégia de marca, ficheiro, comunidade e receita própria fica vulnerável à alteração de um algoritmo ou à mudança de humor de uma empresa distante.
Outra das tendências da economia criativa lusófona está na passagem da exportação de conteúdos para a construção de ecossistemas. O modelo antigo era episódico: levar um artista, organizar uma semana cultural, assinar um protocolo, regressar com fotografias. O modelo que começa a ganhar consistência é mais paciente. Junta escolas, produtoras, fundos, cidades, museus, universidades e empresas que percebem que a reputação se constrói por repetição e confiança, não por inaugurações.
Há cidades portuguesas com escala humana, património e capacidade de acolhimento que podem tornar-se plataformas de produção para criadores brasileiros e africanos. Há cidades brasileiras com massa crítica, mercado e velocidade que podem servir de campo de prova a empresas culturais portuguesas. Luanda, Maputo, Bissau, Praia e São Tomé não devem surgir neste mapa como paragens exóticas de uma rota atlântica. São centros com públicos, códigos e ambições próprias. O erro estratégico começa quando se chama lusofonia a uma relação em que apenas dois países decidem e os restantes fornecem paisagem.
Também por isso a gastronomia merece uma leitura menos superficial. O restaurante tornou-se uma das formas mais eficazes de diplomacia económica, mas não por servir receitas tradicionais a visitantes nostálgicos. Torna-se relevante quando organiza cadeias de fornecedores, valoriza origem, cria formação profissional, influencia turismo e produz uma narrativa de lugar que viaja melhor do que muitos discursos oficiais. O mesmo vale para o design, a moda e a arquitectura. O seu êxito internacional depende tanto de linguagem como de logística, certificação e capacidade de entrega.
Para os investidores, esta é talvez a mudança mais interessante. A cultura deixou de ser apenas uma área de patrocínio reputacional e está a afirmar-se como terreno de activos intangíveis. Nem todos terão retorno rápido, e convém resistir à febre de transformar qualquer projecto cultural numa folha de cálculo. Há obras que precisam de tempo, instituições que precisam de autonomia e artistas que não devem ser convertidos em departamentos de marketing. Ainda assim, ignorar a economia criativa por não caber nos modelos tradicionais é uma forma cara de miopia.
Portugal tem uma responsabilidade particular neste desenho. Pela sua pertença europeia, pode oferecer enquadramento, acesso regulatório e proximidade institucional. Pelo seu passado, carrega também a obrigação de não confundir mediação com tutela. A credibilidade portuguesa no espaço lusófono dependerá menos da retórica da afinidade histórica do que da qualidade das parcerias: contratos claros, co-autoria efectiva, investimento continuado e abertura para aprender com mercados que não funcionam à imagem de Lisboa.
O Brasil, por seu turno, precisa de evitar a tentação de olhar para Portugal apenas como pequeno mercado de entrada. Essa leitura perde de vista a capacidade portuguesa de articular redes europeias, africanas e mediterrânicas, bem como a importância de uma presença que saiba falar com instituições sem perder vitalidade cultural. A ponte atlântica não serve para reduzir um país ao outro. Serve para ampliar margem de manobra num mundo que concentra distribuição, capital e atenção em poucos centros.
A oportunidade mais séria não está numa vaga sentimental de língua comum. Está em criar condições para que uma ideia nascida em qualquer ponto deste espaço possa manter autoria, crescer com parceiros e regressar ao seu lugar de origem com mais valor do que tinha à partida. Quando isso acontecer com naturalidade, a lusofonia deixará de ser uma palavra cerimonial e passará a ser uma economia de relações maduras.

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