Autor: JM-Diogo

  • Tanto Mar

    Tanto Mar

    Portugal voltou a transformar a liberdade em rua, corpo e juventude. Celebrando a revolução dos cravos, a Avenida da Liberdade em Lisboa, mostrou que uma democracia madura não é a que deixa de ter conflitos, mas a que ainda consegue celebrá-los sem perder o chão comum. Ontem, em Lisboa, a Avenida da Liberdade voltou a…

  • O cravo é a notícia

    O cravo é a notícia

    Recebi o cravo antes de perceber que era para mim. Havia gente demais, sol demais, vozes demais. A avenida parecia respirar por milhares de bocas ao mesmo tempo. Ao fundo, o monumento subia desfocado, como sobem certas lembranças: altas, solenes, mas incapazes de tocar a pele. Tudo parecia grande — a cidade, a data, a…

  • Um livro, três línguas, vários continentes

    Um livro, três línguas, vários continentes

    Um húngaro premiado com o Nobel, um livro comprado na Colômbia, lido por um português, no Brasil, em espanhol, sobre o Japão, no dia em que a Hungria vai a votos. Comprei este livro na Colômbia, no dia em que soube que László Krasznahorkai tinha recebido o Nobel de Literatura de 2025. Gostei de o…

  • A liberdade sequestrada no bolso

    A liberdade sequestrada no bolso

    Carregamos no bolso uma máquina de interrupção contínua e chamamos a isso liberdade. Hoje, o problema já não está no uso individual do telemóvel: está no modelo de atenção em que passámos a viver. Um ensaio clínico publicado em fevereiro de 2025 na PNAS Nexus bloqueou por duas semanas o acesso móvel à internet em…

  • O arco de Trump e a arquitetura da vaidade imperial

    O arco de Trump e a arquitetura da vaidade imperial

    Washington discute a construção de um arco triunfal. O debate verdadeiro mede outra coisa: até que ponto uma democracia segura de si aceita transformar a memória nacional em cenografia de poder, grandiosidade e culto político. Washington discute um arco. O tema real é outro: o momento em que o poder deixa de pedir legitimidade à…

  • Coincidências de Barbacena

    Coincidências de Barbacena

    Barbacena voltou esta semana para o centro da língua portuguesa por duas vias ao mesmo tempo: a da culpa e a da memória. Quando uma universidade pede desculpas e um romance devolve rosto aos que foram reduzidos a número, o passado deixa de ser apenas história. Volta a ser uma cobrança. Na mesma semana em…

  • O silêncio de Bondi

    O silêncio de Bondi

    A manobra é simples e devastadora: muda-se o ocupante do cargo, preserva-se a máquina e empurra-se a responsabilidade para um vazio formal. O caso Pam Bondi expõe menos um escândalo isolado do que uma técnica contemporânea de poder: abrir arquivos, fechar a prestação de contas. Washington voltou a exibir um velho truque do poder moderno:…

  • Rio sem rumo

    Rio sem rumo

    Com o governo vago, o Supremo dividido e o Judiciário acumulando funções executivas, a crise deixou de ser apenas sucessória. O que está em causa é mais fundo: a capacidade de distinguir regra de arranjos, autoridade de improviso, estabilidade institucional de simples sobrevivência administrativa em tempo de disputa. Cláudio Castro renunciou ao governo do Rio…

  • Um ano sem o meu pai

    Um ano sem o meu pai

    Faz hoje um ano que o Manuel Leitão Diogo, meu pai dulcíssimo, morreu. Morreu. A formulação é simples. Quase brutal. A verdade, não. Porque o meu pai Manuel, mesmo depois de partir fisicamente continua a sustentar a minha  forma de estar no mundo. Meu pai foi para mim isso: um exemplo de pertença. Não apenas…